Presidente do Conselho de Administração da Marcopolo prioriza a inovação - 16/04/2008
O presidente do Conselho de Administração da
Marcopolo, José Martins, está na empresa há 43
anos, e o segredo de sua longevidade na indústria onde
assumiu importantes posições está em sua
forma de percepção, que foge ao senso comum. Ele
mesmo diz que o inovador é um herege. Para exemplificar,
ele recorreu à história, lembrando que Martino
Lutero, na Reforma Protestante, não se submeteu à ordem
religiosa existente. “Ele inverteu uma ordem que era considerada
natural. É isso que precisa ser feito todo o tempo, em
todas as esferas da vida”, disse.
Em entrevista, durante a Convenção Nacional do
Instituto Euvaldo Lodi (IEL), realizada no início deste
mês, em Brasília, Martins afirmou que os grandes
responsáveis pelo estímulo à inovação
na empresa devem ser os donos e altos executivos. “Os
gestores precisam permitir que os trabalhadores sugiram idéias”,
frisou. Martins, que há um ano está no Conselho
do Instituto Euvaldo Lodi, disse que a instituição
tem um papel importante na implementação da inovação
nas empresas.
Confira a entrevista.
O que a Marcopolo faz
para estimular a participação
dos trabalhadores nos processos da empresa?
Na Marcopolo, temos um quadro de sugestões. A solução
para os problemas quem dá são os trabalhadores.
Quando eu estava na área executiva não aceitava
quando um empregado vinha me dizer que estava com um problema.
Ele que viesse com possíveis soluções para
que juntos escolhêssemos a melhor. Um executivo não
deve permitir que os problemas sejam simplesmente passados a
ele. Isso deixa a empresa flácida e altamente vulnerável.
Como mudar a cabeça dos funcionários?
Temos que estimular os gerentes, chefes e diretores a falar
sobre a importância de inovar. Isso é uma pregação...
Quais são os princípios da inovação?
Entre os princípios destaco os que estão no livro
A Estratégia da Starbuck. O primeiro é “aja
como se fosse o dono do negócio”, pois se você considera
a empresa como se fosse sua você age como dono. “Tudo é importante” é o
segundo princípio. O terceiro é o “gerar
surpresa e encantamento”. Você precisa encantar
e surpreender o cliente, não tratá-lo de uma maneira
comum. Outro princípio é “abrace a oposição”.
Isso significa que devemos aceitar todas as críticas
que existiram, venham de onde vierem. O último princípio é “deixe
a sua marca”. Afinal, o seu trabalho deve ficar marcado
como o melhor que o seu cliente podia esperar.
Você citou o livro A Estratégia da Starbuck como
uma referência de literatura que trata da inovação.
Há outros livros que considera como referência?
Considero também Estratégia do Oceano Azul e
Toyota – A Fórmula da Inovação. Deixo
claro que não há literatura que diga como inovar.
Precisamos criar grupos de trabalho na empresa, com liberdade
para pensar. Temos que mostrar aos trabalhadores que a empresa
precisa mudar. Que mudanças não serão condenadas.
Hoje os maiores inimigos da inovação são
os donos do negócio e a alta gerência, com a antiga
convicção de que em time que está ganhando,
não se mexe.
Quais são os desafios
de se inovar?
Hoje o maior desafio na empresa é torná-la sempre
mais competitiva. É preciso fazer com que a inovação
coloque a empresa em um patamar superior ao das concorrentes.
Não adianta apenas disputar mercado por meio de preços
mais baixos. Em 1998, tive uma visão diferente da concorrência,
que dizia que o futuro seria o ônibus grande, de 13 metros,
piso baixo, duas portas, suspensão a ar e motor traseiro.
Todas as indústrias estavam se preparando para isso.
Eu respondi que o futuro estava em veículos de sete a
oito metros. Estava decidido a fazer o microônibus. Hoje
vendemos quatro mil deles por ano. O pessoal começou
a dizer que eu era bruxo. Respondi que era um observador, viajo
o mundo inteiro, acordo às 4h e vejo a cidade nascer.
A inovação está muito associada a desenvolvimento
tecnológico. Ela é só isso?
A tecnologia também é uma inovação,
mas a inovação no mercado se destaca por atitudes
estratégicas, que não tem a ver com tecnologia.
A Marcopolo, por exemplo, decidiu se internacionalizar em 1990.
Fomos para Portugal, Colômbia, África do Sul, Índia,
Rússia e, recentemente China. Daqui a quatro anos, mais
de 50% do faturamento da empresa será proveniente do
exterior. Ora, isso é inovação. Nós
não mexemos na tecnologia do ônibus. É uma
idéia estratégica. Se você tem um produto
de qualidade deve procurar maneiras de
aumentar as vendas, encantar e surpreender seu cliente. Temos
que aprender a olhar os detalhes.
Qual o papel do IEL
no estímulo à inovação?
O IEL tem um papel extremamente importante no sentido de não
apenas de divulgar a inovação, mas de influenciar
fortemente sua implementação. A instituição
precisa estimular as empresas a usar a inovação
como estratégia fundamental para o crescimento.
|